Quando saio do trabalho no fim da tarde tenho fome e pensamentos intensos numa velocidade oposta à da BR que pego para ir para casa. Hoje eles começaram suaves; pensava no ovo de páscoa que durou quatro dias. Amizade com a gordura e açúcar; viva as calorias vazias!
Mas o fluxo mental aumentava conforme a fome de carboidratos, proteínas e vitaminas no caminho da BR até o outro congestionamento na avenida que demarca o encontro entre a rua da PUC-PR e uma favela. Social contradição como o movimento dos carros e o dos meus pensamentos.
Nessa esquina vi um outdoor com a Fernanda Machado. Magra, quase padrão anorexico. A fome e o fluxo de consciência crescente trouxeram uma lembrança: foi a Fernanda quem ficou com o papel do primeiro teste para comercial que eu fiz. De lá para cá diminui consideravelmente essa rotina de atriz de comercial de tv que é tão vazia quanto as calorias do chocolate. Envolvi-me mais com a vida acadêmica e artística; tenho muito mais prazer em poder ter conteúdo para as vitais congestões da mente e o descongestionamento das calorias proibidas pelo ilusório mundo das mídias.
Andei mais alguns metros e as ilações mentais deixaram de lado o outdoor; fui surpreendida pela imagem viva e curiosa de três crianças cor de chocolate, entre 05 e 07 anos. Ali na favela cada qual comia um ovo de páscoa inteiro numa, literalmente, sentada.
Foi indescritível expressão que toda seratonina, endorfina ou sei lá qual outro hormônio do prazer produzido pelo açúcar revelava nas figuras mirins. Naquele momento não vi as cáries ou a falta dos dentes, o desbotado das peles, os pés descalços, a escola que eles não freqüentam, a necessidade de calorias reais e todas as outras carências que chamo de Brasil. Eram só crianças saboreando um ovo. Inteiro.
As bocas, mãos e desejos sublimados em chocolate que ganharam no sinaleiro. Provavelmente de alguém entre tantos que tem a preocupação de vida da ingestão de calorias vazias, o problema do trânsito ou a anorexia da estrela da tv. Como Eu. Como.
Só queria mais pôr-do-sol.

