terça-feira, 30 de abril de 2019

Corpo complexo







Buscando com calma
Um corpo
Que comporte
Tanta alma.

Um corpo decolonizado
Nem leve
Nem pesado
Mas que pensa
Com o todo e com a parte
Com a razão e com a crença

Um corpo sem medo de envelhecer
Mas que seja forte
Para muito ainda viver
E dar tempo para tanto fazer

No ser além do dinheiro
Que corrompe
Que invade
Que imobiliza
Que isntantaniza
Que sataniza ...
Nossa essência,
Porque vive só de aparência.

E te faz gastar para acumular
Para se ter... sabe-se o que?
E esquecer
Do que sempre estava lá,
Escondido no sofrer.

A vida
Contínua
De beleza e desafios
Seja qual forem os caminhos
Vezes complexos, vezes simples
Longos ou curtinhos...
Sempre estarão lá.

Um corpo nada plastico;
Não é de comprar.
Tudo prático:
É  de trabalhar,
Divertir
Respirar.

Enquanto vivo se está
Colocar descalços os pés no chão
Saber dizer sim  e também dizer não
No caminho
Que se faz ao caminhar.

Corpo é território
Repertório
É espaço
No qual existo e escolho o que faço
Nada nele vai mandar.

Único limite?
Asas que me faltam para voar...



sexta-feira, 8 de março de 2019

8M




No céu a lua
Se parece uma lasca
Da unha!

Vermelha, da Femme fatale
Ou quebrada,
Da mulher coragem

Ambas na luta.

De ser mulher
De saber o que se quer
E mesmo assim se perder

Entre desejos e restrições
Que o mundo de machões
Ainda atravessa em nós.

Mas ver o céu
Essa amplidão que abriga a lua
Faz pensar que a luta continua...

Pois cada estrela que lá brilha
É a nossa ancestralidade que oscila
E  que faz perceber
Que todas elas estão vivas em mim e em vocês;

Mulheres.

No céu somos etéreas,
Eternas.
Mas também somos terra
Telúricas, aquosas e fogosas.
(Às vezes dengosas!)

Emoções;
Vento,
Ventre,
Estações.

Fases como a lua
Esse pedaço de unha
Que arranha
Assanha
Despedaça e reconstrói corações.

Obrigada, mulheres.

Mães, irmãs, amigas, guerreiras.
Vozes unidas,
Companheiras
Da nova era que viemos desenhar.

Era do poder feminino
Da essência,
Do divino
Do nosso maior segredo que é:
Simplesmente amar!




terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

QUATRO HORAS


              

Eu queria estar tomando banho e seguindo o dia normalmente. Mas não me importa estar atrasada para o trabalho, já não consegui dormir essa noite e escrever pelo menos me alivia a mente.

Eu tive insônia a noite toda, mas não foi por causa de um pesadelo, melhor seria. É a realidade cruel demais que supera qualquer profundeza do inconsciente dessa vida.

Eu queria dizer que as notícias são sensacionalistas, que é um exagero midiatíco muito intenso. Mas nem a catarse mais imensa  consegue se aproximar de tamanho sofrimento.

(E catarse passa, alivia. Hoje o que a alma sente é uma dor que não se mede, não se descreve, não se imagina.)

Eu queria que sua dor também fosse apenas na alma, como a minha. Mas não, suas marcas são físicas, seu corpo está  desfigurado, sua face desconstruída.

Eu queria estar ao seu lado, te abraçando, dizendo tudo vai passar. Mas não vai, nunca passa, e os gritos de tantas mulheres desesperadas ainda são chacotas para esse mundo ao contrário.

Eu queria ser sua vizinha e ter escutado o primeiro grito de socorro para arrombar aquela porta em prontidão. Mas outras Elaines gritam, gritaram e gritarão, e ninguém  as escutarão.

Eu queria ter atropelado aquele rapaz  quando ele estava a caminho da sua casa. Eu ia sentir culpa, eu nunca saberia o que eu teria evitado. Mas eu nem mais dirijo nesses dias amargos.

Eu queria poder limpar a sua casa, tirar todas aquelas manchas horrorosas na parede registradas. Mas não haverá sabão, tinta ou qualquer produto capaz de amenizá-las.

Eu queria parar de falar de mim, falar de ti, falar de nós. Mas temos que ser nós, pois a sororidade ainda é a nossa única arma, nossa única voz.

Eu queria tanta coisa para minha vida, para minha sina, meu trabalho, meu filho, meu mundo, meu ser. Mas ainda vejo que a mulher tem que lutar é apenas para sobreviver.

Eu queria somente fazer doce e agradável poesia. Mas cada palavra tem o pesar de tantas feridas...


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Brumadinho


O rio corre vermelho
Como sangue
O sangue que não se vê
Dos corpos que não se vê.

Correm também  lágrimas
Dos olhos que isso vê;

O dinheiro
Que vale
Mais que a vida

Vale da tristeza.

Quanto vale?
O minério
Do ferro da terra
Que fere a terra.

O vale.
A vala.

Que carrega os corpos
Ocultos na lama
Tão vermelha
De tóxica poeira.

O ferro da terra ferida
A ferritina do sangue escondido
Dos tantos corpos que não se vê.



sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

RETROSPECTIVA



Há um nevoeiro na paisagem
Misto de chuva e calor
Mas sei que é o Véu de Maia
Que veio aqui ao meu favor.


Gratidão, palavra-chave,
Com uma grande porção de amor.

Muitos desafios,
Algumas taças de vinhos
Muitas conquistas
Algum temor.

Faz parte da vida.
Porque até a planta
Para nascer sente dor.

Semente que rasga a terra
Buscando alimento, luz e calor.

Somente sou eu
Sentimento fin-de-sciècle
Para o ano que acabou.

Raízes na terra
Se  agarram  com força
Drummond me ensinou...

Juliana, você é telúrica!

São raízes fortes
Para crescer alta
Em direção ao céu.
Cúmplice de Maia,
Compartilhando do mesmo véu.

Saber voar com os pés no chão.
Vezes sim,
Vezes não.

Palavar-chave: Gratidão.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O que me leva
E o que me traz
O tempo.

Pensamento,
Sentimento
Enfrentamento

De mim.

Sorrateiro
Constante
Sagaz
Sem fim

Sempre presente
Carregando meu passado
Preparando meu futuro
Tanto que nem sei...

Na cabeça muitas idéias
E cabelos de outrora dourados,
Agora grisalhos
Muito mais ouro valem

Com muito orgulho.

Mergulho

Cada vez mais profundo
Nesse mar sem fundo
Do viver

Só ser
Estremecer ao saber
Que cada vez menos serei

E deixar assim a vida mesmo responder
As ânsias que pareciam não caber

Sempre fui assim
Mas agora mais calma
Vou compreendendo minha alma
E tantos desejos que habitam aqui

Essa casa
Tão arejada
De liberdade
Onde entram e saem passarinhos
Que me convidam a voar...

Vou lá
Encontrar a poesia esquecida
Na correria do dia a dia
Mas que está La, adormecida
Me esperando para acordar.

Me desfaço
De tanto autos retratos
E compreendo
Que tenho muito mais o que mostrar...

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A volta do malandro



         Dos últimos três shows do Chico Buarque  que assisti: "Carioca" em 2008 (Teatro Guaíra, Curitiba); a turnê do álbum "Chico" em 2012 e  agora "Caravanas" (os dois no Vivo Rio), digo enfática e categoricamente que  esse último foi o melhor de todos. E arrisco a dizer que foi um dos melhores shows de toda minha vida!
         Primor do inicio ao fim em todos os quesitos: a elegância do figurino; a estética clean do cenário; a sutileza da iluminação - um espetáculo a parte; os músicos maravilhosos que o acompanham com destaque para Bia Paes Leme em "Dueto"; a escolha do repertório das composições antigas e claro, a graça das músicas do novo álbum.
         O músico e sua embaixada abrem o espetáculo mostrando que vieram para arrasar e resgatar o vigor e musicalidade do velho Chico, o que não se viu no show de 2012.     Com muito mais músicas, “Caravanas” trás na seqüência “Mambembe”, “Partido Alto” e a eternamente “Iolanda”, do repertório antigo, e “Casualmente” e “A moça do sonho”, ambas do álbum que se lança.
         Em seguida a homenagem em bom e para o Tom ficou com “Retrato em Branco e Preto” e já no final do show com a emocionante “Sabiá”. E como não poderia deixar de ser, o saudoso Wilson das Neves também foi homenageado, com direito a chapéu e tudo.
       Para quem, como eu, ama as composições dramatúrgicas do Chico, a deliciosa oportunidade de ouvir alguns clássicos de a “A ópera do Malandro (com bônus de “Geni e o Zepelim”, no bis) e de “A gota d´água”. Mas o auge, sem dúvida, foi “A história de Liliy Braun” que emendou com a “Bela e a Fera” num arranjo de jazz tão fantástico que trouxe a tona toda a mística e emoção do Grande Circo.
         Aliás, um parágrafo de destaque para falar dos arranjos incríveis desse show; mérito de Luiz Cláudio Ramos, que assina os arranjos dos Shows de Chico há décadas e é também quem toca violão e guitarra no espetáculo.
         As músicas do novo álbum tem a cara do Chico de outrora. Só ele para tratar com tanta poesia de questões sociais. "Blues para Bia" é jocosa ao falar de uma garota homossexual. Atualíssima em época de empoderamento feminino e defesa de direitos às diversidades. A música que nomeia a turnê é uma luvada de pelica na elite branca carioca. Versos ousados como “E essa zoeira dentro da prisão/Crioulos empilhados no porão” apontam uma realidade que não mudou muito  nessa caravana que segue desde o Brasil escravocrata.

         Aliás, para mim, que ha quase 8 anos resido no Rio, o show teve um toque muito, muito especial, pois só agora entendo na pele, na alma, na minha história o significado de Real grandeza, Simpatia é quase amor, Mangueira, São Sebastião e de tantas outras faces desse Rio de beleza e caos que abriga na sua poética um dos maiores artistas do país. Ode ao Chico!   Minha humilde homenagem a volta do malandro.